O trabalho de campo: método e considerações sobre o uso da fotografia na descrição do patrimônio cultural

“Será que os antropólogos, antes da próxima década, se darão conta de que os homens, as sociedades e as culturas que continuam pretendendo estudar são regidos por novos suportes comunicacionais? Suportes esses que não lhes permitirão mais sacralizar, unicamente e com tanta cegueira, as virtudes – no entanto inconfundíveis – da escrita, se quiserem (ainda) se apoximar das comunidades humanas socialmente “organizadas a partir desses outros meios e parâmetros comunicacionais e tentar entendê-las”(SAMAIN. In ALVES, 2004.51).

O universo insular é como diz Diegues, “(…) um símbolo polissêmico, com vários conteúdos e significados que variam de acordo com a História e as sociedades” (DIEGUES. 1998:13). Ao se iniciar este trabalho de pesquisa na Ilha dos Marinheiros em 1999, defrontou-se com este mundo em miniatura, este ambiente insulano repleto de imagens que se formam a seu respeito, e que são distintas das dos não nativos daquele ambiente isolado. Limitados por um isolamento geográfico, esta população desenvolveu uma cultura própria e um modelo de sociedade caracterizado não só pela herança cultural recebida de seus antepassados, mas de características sócio-culturais próprias de habitantes do mundo insular. Suas atividades econômicas basearam-se então tanto na pesca como na agricultura.

“(…) Os pescadores são frequentemente considerados camponeses, talvez pelo fato de explorarem também a terra. A tal exploração da terra e do mar dá-se o nome de pluralismo econômico, fenômeno que alé de ocorrer no litoral brasileiro, aparece também em grupos pesqueiros de vários lugares do mundo” (MALDONADO, 1986: 13).

O imaginário do homem do continente está repleto de imagens sobre as ilhas e seus habitantes. Antes de iniciar este trabalho não era diferente com este pesquisador. Por já haver estudado a história da ilha, sabia um pouco, sobre sua história, sua população e sua cultura. Todavia, a imaginação e o pseudo conhecimento que achava possuir sobre a Ilha e os seus ilhéus, mostrou-se com uma enorme diferença com relação à realidade existente.

Para um etnólogo, um antropólogo ou mesmo um fotógrafo, a função do “flâneur” , se fazia necessário desempenhar.  Também agir como Marcel Mauss, aponta em seu Manual de Etnografia (2006), quando se refere à maneira de como observar e identificar os lugares onde se irá trabalhar, assim como qualquer manual de fotografia aponta técnicas de procedimento para o fotógrafo trabalhar. Dessa forma, essas foram as principais características das primeiras idas à Ilha dos Marinheiros.

Após algumas viagens realizadas à Ilha, se fez necessário, para se entender a cultura do ilhéu, a inserção do pesquisador na comunidade. Assim, tendo-se observado profundamente a sociedade ilhéu, estabeleceu-se uma forma de procedimentos básicos, afim de definir como se realizaria o trabalho.

As relações socias com os ilhéus tiveram início em 1999, nas visitas realizadas em cada casa e a cada família da ilha, onde o pesquisador se apresentava, conversava e realizava fotografias somente quando autorizado pelos ilhéus. A práxis, sugerida por John Collier Jr. (1974), onde as imagens colhidas anteriormente eram devolvidas ampliadas a cada nova visita, foram feitas desde o início. As sugestões de Mauss (2006), sobre como proceder em trabalhos etnográficos, apontadas no manual de etnografia também foram utilizadas.

Isto aconteceu nos últimos nove anos, de forma ininterrupta, fazendo com que a investigação participante, rendesse algumas milhares de imagens fotográficas e um relacionamento que ultrapassava a simples “observação participante”. O fato de ter sido aceito como um deles e participado de inúmeros eventos na comunidade, contribuiu muito para ser aceito na Ilha.

Percebe-se a importância do dizer de Malinowski, em suas sugestões na introdução do livro “Os Argonautas do Pacífico Ocidental”, quando diz que “(…) recomenda-se ao etnógrafo que de vez em quando deixe de lado máquina fotográfica, lápis e caderno, e participe pessoalmente do que está acontecendo” (MALINOWSKI, 1984:31).

A observação atenta, com a inserção na comunidade e as exaustivas visitas, aos finais de semana à Ilha dos Marinheiros, levaram o pesquisador a ser aceito pela comunidade como sendo alguém que se interessava por eles, por seus problemas e que passava horas a fio sentado a escutá-los.

As fotografias que retornavam aos ilhéus, eram verdadeiros passaportes para as novas etapas dos trabalhos que se desenvolvia. Não raro, ser atacado por alguém na ilha, que ofendido dizia: “quando é que vão me fotografar? Já fotografaram a todos os meus vizinhos e eles já receberam as fotos! Estou esperando que apareçam lá em casa! Para fazerem as fotos e conversarem…”.

Anúncios

0 Responses to “Falando da Fotoetnografia e da Fotoetnotextografia”



  1. Deixe um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s




%d blogueiros gostam disto: