28
abr
16

IMAGENS E FOTOGRAFIAS

Aprendemos a ler associando imagens a símbolos. Para compreender a letra “A”, é apresentada a imagem de uma árvore ou de uma arara. Para conhecer o “B”, uma bola ou uma baleia é mostrada, e assim o mesmo procedimento segue até o final do alfabeto. Após aprender as letras vogais e consoantes, aprendemos a juntá-las, a formar palavras e, finalmente, frases. Porém, nem sempre foi assim que o homem se expressava ou se comunicava. Antes de conhecer e aprender o alfabeto, os fonemas e a linguagem, o ser humano se comunicava por sons, grunhidos e, sobretudo, por meio de imagens.Recuero

Existem registros de imagens desenvolvidas pelo ser humano pré-histórico que tentavam “narrar a sua história” em esculturas de pedras e pinturas em paredes de cavernas. Há um reconhecimento e representação do sujeito enquanto ator de práticas que é observador e que sente e a necessidade de fixar seu pensamento, suas experiências, em imagens. Esta narrativa de si, como ressalta Teilhard de Chardim (citado por Cerfaux), mostra que “o primeiro homem que ‘imaginou’ escrever começou por desenhar ou pintar casas, árvores, pássaros. Escrevia como pensava, por Imagens” (CERFAUX, 1974, p. 5).

A fotografia foi uma das invenções (com a Revolução Industrial) que teve papel fundamental para a inovação de informações e conhecimentos no campo científico, artístico e informacional, diz Kossoy (1999). Desde então, a partir de sua invenção em 1839, por Louis Jacques Mande Daguerre, a fotografia tem se mantido como uma das formas de registro histórico na Humanidade. Para Freeman (2013), a fotografia é o meio de expressão mais popular em todo o mundo.

Empregar a fotografia como ilustração dos processos e acontecimentos sociais é uma prática comum na sociedade atual, em especial nos processos comunicativos. Ao mesmo tempo, ela se torna para a sociedade um instrumento de primeira ordem para se registrar a própria vida, pois o seu poder de “reproduzir exactamente a realidade exterior – por inerente à sua técnica – empresta-lhe um caráter documental e fá-la aparecer como processo de reprodução mais fiel, o mais imparcial da vida social” (FREUND, 1995, p. 20). Entretanto, ao longo de sua história, a fotografia aparece mais como um meio de representar o mundo aos sujeitos que fazem parte dele, imagens da vida, imagens da sociedade, imagens ilustrativas. Representa que o entendimento da imagem que é fixada ao “papel”, parte de um sujeito que estipula o que quer mostrar e significar. Assim, a compreensão do pensamento do fotografado ou do sujeito que identifica a fotografia como um fato cotidiano de sua vida, partindo desta apreensão da imagem quanto narrativa

 

sequencial e discurso social, parece ser um tema ainda pouco explorado nos estudos em comunicação social. E mais! A percepção da conjugação das interpretações: fotógrafo (por meio da fotografia) e fotografado é algo que não é comumente posto em discussão.

Significa que compreender a fotografia a partir da visão do indivíduo que é fotografado em suas práticas cotidianas, a partir de um possível “descobrimento” identitário e/ou ainda uma reeducação social por meio do reconhecimento de si e de sua sociedade, parece revelar indícios de outra função que a fotografia possui: funcionar como um “espelho” de como os sujeitos distinguem suas sociabilidades e a sua cultura. Colocar este entendimento com base na percepção do idealizador da fotografia e entender o discurso produzido, por ambas as partes, parece indicar um exercício rico de significados, transformador de possíveis realidades.

03
ago
08

Fotografia x Ilhéus x Pesquisa

O trabalho de campo: método e considerações sobre o uso da fotografia na descrição do patrimônio cultural

“Será que os antropólogos, antes da próxima década, se darão conta de que os homens, as sociedades e as culturas que continuam pretendendo estudar são regidos por novos suportes comunicacionais? Suportes esses que não lhes permitirão mais sacralizar, unicamente e com tanta cegueira, as virtudes – no entanto inconfundíveis – da escrita, se quiserem (ainda) se apoximar das comunidades humanas socialmente “organizadas a partir desses outros meios e parâmetros comunicacionais e tentar entendê-las”(SAMAIN. In ALVES, 2004.51).

O universo insular é como diz Diegues, “(…) um símbolo polissêmico, com vários conteúdos e significados que variam de acordo com a História e as sociedades” (DIEGUES. 1998:13). Ao se iniciar este trabalho de pesquisa na Ilha dos Marinheiros em 1999, defrontou-se com este mundo em miniatura, este ambiente insulano repleto de imagens que se formam a seu respeito, e que são distintas das dos não nativos daquele ambiente isolado. Limitados por um isolamento geográfico, esta população desenvolveu uma cultura própria e um modelo de sociedade caracterizado não só pela herança cultural recebida de seus antepassados, mas de características sócio-culturais próprias de habitantes do mundo insular. Suas atividades econômicas basearam-se então tanto na pesca como na agricultura.

“(…) Os pescadores são frequentemente considerados camponeses, talvez pelo fato de explorarem também a terra. A tal exploração da terra e do mar dá-se o nome de pluralismo econômico, fenômeno que alé de ocorrer no litoral brasileiro, aparece também em grupos pesqueiros de vários lugares do mundo” (MALDONADO, 1986: 13).

O imaginário do homem do continente está repleto de imagens sobre as ilhas e seus habitantes. Antes de iniciar este trabalho não era diferente com este pesquisador. Por já haver estudado a história da ilha, sabia um pouco, sobre sua história, sua população e sua cultura. Todavia, a imaginação e o pseudo conhecimento que achava possuir sobre a Ilha e os seus ilhéus, mostrou-se com uma enorme diferença com relação à realidade existente.

11
jul
08

O Cruzeiro

O Cruzeiro

O Cruzeiro é uma cruz de madeira fincada no chão, na Ilha dos Marinheiros, e geralmente próxima das capelas nas três comunidades religiosas existentes na ilha. Na ilha existem três Cruzeiros fincados e cada um está ligado à história da comunidade próxima a ele.

Assim, em um primeiro momento é necessário, para se entender o comportamento do ilhéu, compreender a identidade do povo insular, e aí se poder ter a compreensão da dimensão social, cultural e religiosa que a cruz de madeira, o Cruzeiro, estabelece nesta sociedade, enquanto símbolo mítico, que fincado em local “virgem”, permite estabelecer uma ligação entre o humano (a terra) e o divino (o céu), e  a forma como ele rege as estruturas sociais e religiosas da comunidade dentro da sua realidade. “(…)Um sinal qualquer basta para indicar a sacralidade do lugar” (ELIADE, 2001: 30).

22
jun
08

Uma Ilha…

Quando se visita a ilha dos Marinheiros, pela primeira vez, impressiona a mágica do lugar. Talvez, o olhar ao se debruçar sobre o verde, os ouvidos escutarem o borbulhar do mar e o olfato perceber aquele cheirinho puro de ar e liberdade, a tornem, parte de um sonho que se teve quando criança.

Depois a fantástica acolhida que se recebe dos ilhéus, e o poder partilhar de sua vida, seus sonhos, seus anseios e desejos, mostram que a vida é mais do que relógios a ditarem o andar das pernas e o fazer das coisas.

A vida que se percebe ali, é de uma vida fundamentada na exteriorização dos aprendizados feitos através da experiência e do próprio tempo, os quais, datam da época em que os mitos estavam à serem criados, e as lendas eram apenas histórias dos acontecimentos ocorridos no dia anterior. Ali se descobre que cada antigo é uma enciclopedia sobre a própria cultura e a sua sociedade.

Percebe-se neste trabalho de dissertação, que a religiosidade, e a fé no sobrenatural, é que ditam a ordem social naquela sociedade. Que o indíviduo se adapta ao tempo dos ventos e das marés, e faz com que a sociedade insular, embora, corrompida pelo cotidiano da modernidade, busque re-encontrar no tempo mítico, o sagrado e os valores da própria existência.

É, pois, destes encontros e re-encontros, que o homem da ilha dos marinheiros restabelece a harmonia  com o sobrenatural, e prepara-se para se confrontar com o profano, até a próxima festa, fazendo com que o fato social, ainda que individual, seja a expressão cultural que exprime a geografia social do ilhéu.

Partilhar desta experiência do “marinhense”, é uma dádiva, foi uma dádiva, e a obrigação de se retribuir, se faz neste trabalho. Com as imagens fotográficas foi possível, como diz  Marc Augé, pela curiosidade do etnológo “devolver(em)  àqueles os quais investiga o gosto pelas origens”.(AUGÉ.2007.44).

16
maio
08

A incendiária…

Meu drama foi esquecer de por crédito no celular. Não pude avisar os bombeiros e nem as forças de segurança nacional.

Ainda bem que os “anjos”do céu estavam atentos…

De posse de um rabo quente, uma xícara e uma sopa pronta por fazer, a tentativa de incendiar o pensionato falhou… O que pensar? As histórias e estórias não me deixam mentir. Um computador cheio de “picumã”, uma bota meio queimada e um odor de borracha em todo o pensionato, fizeram as irmãzinhas passarem a noite em oração, afinal era apenas quarta feira, dia 14.

Mas, devem terem pensado, será que havia faltado pilha no relógio da bruxas, e elas vieram na data e dia errados? Ou foi mesmo o diabo “do  rabo quente”, (Novo nome deLucífer), que havia sido enviado dentro de um pacote de sopa pronta, comprada num super mercado qualquer, ainda nem abençoado pelo bispo, com intenções nefastas de pintar o prédio de cinza e preto???

Vamos aguardar os desdobramentos…

12
maio
08

O tempo

O que é o tempo?

É viver como os ponteiros do relógio????

Gostaria de ser como as marés que se movem com os ventos…

Gostaria de ser como o sol, que circula doando-se à terra…

Gostaria de viver no ritmo da natureza, que sabíamente vai aos poucos construindo a vida…

Enfim, este é o tempo. O  tempo que deveria ser o de cada um de nós…

25
abr
08

Fotografia e Antropologia

Faz-se necessário uma reflexão sobre a fotografia e o seu uso na antropologia. A pretensão é de se elucidar, como estas duas ciências podem conciliar as duas modalidades de conhecimento, de forma a contribuírem para uma melhor compreensão do estudo das sociedades, das culturas e dos fatos sociais, que registram e observam. Comunicação e Antropologia, nos termos de Samain (1998.09), “dão-se muito bem e comunicam-se muito mal. (…) se imaginam mais do que se conhecem, narcisam-se mais do que se exploram mutuamente”.

A invenção da fotografia, “(…) abriu à antropologia novas possibilidades de trabalho, como objetivar aspectos da realidade que antes não passavam de meras impressões”(GURAN. In ACHUTTI.1998.88), uma vez que a própria natureza vai se substituindo a cada momento, mudando o anteriormente visto. No atual processo de modernidade globalizante, a própria cultura sofre alterações a cada momento, estando em contínuo movimento.

A cultura é indiscutivelmente um reflexo da comunicação humana. Silveira (2002), diz que a cultura contemporânea é indissociável e essencialmente midiática ao ponto de Antropologia e Comunicação “parecerem espaços sobrepostos, linguagens complementares, verso e reverso do mesmo saber (SILVEIRA.2002.6). As vertiginosas mudanças, as quais o mundo moderno se submeteu, coisa jamais vista na história da humanidade, não podem ser paradas, mas agora, com o advento do ato fotográfico, podem serem registradas, gravadas e armazenadas para “depois” se ver.

Ao se falar de fotoetnotextografia, se fala de uma hiperescrita (textos híbridos não lineares) entre diferente meios e variados discursos (STAM. 2001), que aqui são utilizados para apresentar, documentar, descrever um acontecimento observável, através desta técnica. Mas, para tanto, é necessário deixar-se de lado a canonização do texto etnográfico como linguagem única para retratar a alteridade.  A expressão de Marshall Mcluhan (1979) de que  “(…) o meio é mensagem”(MCLUHAN.1979.21), encontra a visão como forma de o identificar, e se é mensagem, encontra na luz uma forma de reprodutibilidade que reforça o análogo do visto.

A invenção do alfabeto, tradicional fez com que a imagem se tornar-se uma alegoria, que necessitava de uma persuasão. A voz da autoridade, na narrativa, pertencia ao texto, embora, as vezes, viesse cooptado pelo imagético. José da Silva Ribeiro (2005), menciona “(…) os antropólogos desconfiaram das imagens ao mesmo tempo em que mantiveram uma secreta esperança de que estas lhes resolvessem alguns problemas (o da objetividade). (RIBEIRO. 2005. 634), e assim, desde o início, estabeleceram uma afinidade com aquele aparelho “reprodutor técnico da realidade”, a câmara fotográfica.